Como o autismo afeta os relacionamentos?
Os relacionamentos costumam ser uma das áreas da vida em que pessoas autistas encontram mais desafios. Não porque sejam incapazes de amar, criar vínculos ou demonstrar afeto, mas porque muitas das dificuldades características do autismo aparecem justamente quando duas pessoas precisam compartilhar expectativas, emoções e formas diferentes de perceber o mundo.
Talvez você já tenha vivido uma situação em que seu parceiro disse que você parecia frio ou distante, quando, na verdade, você apenas estava cansado ou concentrado em outra coisa. Ou talvez tenha sentido que uma conversa simples rapidamente se transformou em um conflito, sem conseguir compreender exatamente como isso aconteceu.
Em momentos assim, é comum surgir a pergunta:
"Será que existe algo errado comigo? Será que pessoas autistas conseguem ter um relacionamento saudável?"
O problema não é a falta de amor
Uma das ideias mais equivocadas sobre o autismo é acreditar que pessoas autistas sentem menos amor, empatia ou desejo de construir uma relação. Mas na verdade, a realidade é outra.
Na maior parte das vezes, o que existe é uma diferença na maneira como sentimentos são percebidos, expressos e compreendidos. Muitas demonstrações de carinho podem passar despercebidas pelo parceiro, assim como sinais emocionais importantes podem não ser percebidas por ambas as partes.
Isso faz com que ambos sintam que estão se esforçando muito, mas que continuam se sentindo mal compreendidos.
O encontro entre dois mundos diferentes
Todo relacionamento envolve duas histórias diferentes, duas formas de enxergar a vida e duas maneiras de se comunicar. Quando uma das pessoas é autista, essas diferenças podem se tornar ainda mais evidentes.
Enquanto um parceiro pode esperar demonstrações de afeto em datas comemorativas, o outro pode demonstrar amor de modo espontâneo, ajudando nas tarefas do dia a dia, respeitando a rotina da pessoa amada ou procurando resolver seus problemas de forma prática.
Nenhuma dessas formas é mais correta do que a outra. O desafio aparece quando cada um espera que o outro demonstre amor exatamente da mesma maneira que faria, ou seja, quando espero que a linguagem do outro seja a mesma linguagem que a minha.
Comunicação é uma das maiores dificuldades
Grande parte dos conflitos em relacionamentos envolvendo pessoas autistas nasce da comunicação devido a incompreensões dos dois lados.
Muitas pessoas autistas utilizam uma comunicação mais direta e objetiva, focada no aqui e agora, enquanto seus parceiros podem recorrer a mensagens indiretas, insinuações ou esperar que determinados comportamentos sejam "óbvios".
Imagine, por exemplo, alguém dizendo: "Tudo bem, não precisa vir."
Em muitos contextos, essa frase pode significar exatamente o contrário do que foi dito. A expectativa é que o outro perceba a frustração escondida nas palavras. Já uma pessoa autista pode compreender apenas o significado literal da frase e acreditar que realmente não há problema em não comparecer.
As diferenças também aparecem na rotina
Outro aspecto importante envolve a previsibilidade.
Mudanças de planos de última hora, excesso de estímulos, ambientes muito barulhentos ou compromissos sociais prolongados podem gerar um desgaste significativo para muitas pessoas autistas.
Quando isso não é compreendido pelo parceiro, é comum que o comportamento seja interpretado como falta de interesse, preguiça ou desamor.
Na realidade, muitas vezes trata-se apenas do esforço necessário para lidar com uma sobrecarga sensorial, social ou emocional. Inclusive, muitas vezes a pessoa autista pode não sentir uma falta de interesse, preguiça ou desamor do outro, justamente por compreender o esforço necessário na realização de algumas atividades.
Relacionamentos saudáveis são possíveis
Apesar dos desafios, pessoas autistas podem construir relacionamentos profundamente significativos.
Muitos casais desenvolvem relações marcadas por sinceridade, lealdade, estabilidade e grande comprometimento.
Isso não acontece porque deixam de existir dificuldades e diferenças, mas porque cada um está disposto a compreender a necessidade do outro, ajustando expectativas e construindo formas de comunicação mais claras.
Em vez de tentar fazer com que um dos parceiros se comporte como o outro espera, o relacionamento passa a respeitar as diferenças existentes entre eles.
O objetivo não é mudar quem você é
Pessoas autistas podem chegar nos relacionamentos acreditando que precisam esconder características do autismo para serem aceitas. Mas isso é confuso, pois como separo o que é "do autismo" e o que "é meu"?
Relações saudáveis não são construídos a partir de tentativas constantes de parecer e tornar-se alguém diferente, pelo contrário. A relação saudável acontece quando existe espaço para compreender limites e necessidades, negociar desejos e preferências, comunicar dificuldades e encontrar maneiras de cuidar da relação sem abrir mão da própria identidade.
Isso vale tanto para a pessoa autista quanto para seu parceiro.
A psicoterapia pode ajudar
Na psicoterapia, é possível compreender melhor suas experiências, seus limites, suas necessidades e o que você está sentindo. Também é possível analisar a forma como você se comunica com a pessoa com quem se relaciona e como essa pessoa se comunica com você, desenvolvendo estratégias que favoreçam uma comunicação mais clara, respeitosa e com sentido para ambos.
O objetivo não é ensinar uma pessoa autista a agir como alguém não autista, mas ajudá-la a construir relações mais autênticas, respeitando sua maneira de existir no mundo e favorecendo vínculos mais seguros, saudáveis e significativos.
Escrito por

Marcos Nascimento
Psicólogo clínico, formado pela Universidade Federal de Pernambuco, especialista em Psicologia Clínica com pós-graduação em Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica pelo Instituto Dasein, além de ser membro do American Daseinsanalytic Institute.
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