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É normal se sentir instável no luto?

Uma das experiências mais comuns de quem está vivendo um luto é a sensação de instabilidade emocional. As emoções parecem intensas, imprevisíveis e, muitas vezes, contraditórias. Em poucas horas, tudo pode mudar.

Talvez você já tenha vivido um dia de luto em que acordou sentindo uma raiva intensa. Algumas horas depois, essa raiva deu lugar a uma tristeza profunda, e de noite, o que restava era uma sensação de solidão e desamparo. Em momentos assim, é comum surgir o pensamento: "Será que estou enlouquecendo? Como posso sentir tantas coisas diferentes em tão pouco tempo?"

A instabilidade não trás apenas sentimentos desagradáveis

Dias depois, porém, você pode acordar emocionalmente mais estável, com a sensação de maior clareza e organização, há um certo alívio e fica mais fácil compreender o que aconteceu e pensar no que está por vir. Às vezes, surge até a impressão de que o luto passou.

Mas isso não significa que o luto tenha acabado, pois muitas vezes após sentir que o luto passou, podemos viver todas as emoções novamente. Ao mesmo tempo, a sensação de paz também não é um engano completo, ela faz parte do modo como o luto costuma acontecer.

As ondas do Luto

O que está acontecendo faz parte de um movimento esperado do luto, conhecido como "ondas do luto", pois o luto é um processo dual. Em vez de vivermos continuamente mergulhados na dor, nossa experiência costuma oscilar entre dois movimentos diferentes: ora estamos voltados para a perda, ora para a reconstrução da vida.

Essa alternância não significa viver o luto de forma errada ou que estamos enlouquecendo, pelo contrário, são experiências esperadas e que fazem parte de um processo saudável de adaptação a uma nova realidade.

A perda

Quando nosso olhar se volta para a perda, entramos em contato com tudo aquilo que foi rompido. É nesse momento que a saudade aparece com força, que sentimos tristeza, que podemos nos desesperar, que a raiva pode surgir e que sentimos o impacto da ausência.

É como se você fosse, pouco a pouco, sentindo cada vez mais um vazio dentro de si, tornando cada vez mais real o fato de que houve uma mudança significativa e irreversível em sua vida. E isso é um trabalho exaustivamente emocional.

A perda não é apenas de uma pessoa, mas também de uma rotina, de significados, de experiências, de familiaridade, de segurança, da impossibilidade de reviver momentos.

A reconstrução

Ao mesmo tempo, existe o movimento da reconstrução, que é quando o olhar se volta para o que permaneceu. É possível organizar pensamentos, resolver questões práticas, conversar com alguém, trabalhar, estudar ou até experimentar momentos genuínos de prazer e serenidade. Aqui, você está voltado para a continuidade da vida.

É reconhecido que a perda aconteceu, mas há espaço para respirar, refletir e lidar com as demandas da realidade. Nesse momento, é comum a sensação de clareza sobre o que realmente importa em nossa vida.

É justamente essa alternância, que é completamente imprevisível, entre perda e reconstrução, que sentimos instabilidade no processo do luto.

O luto não segue uma linha reta

Ele se parece muito mais com um movimento pendular, de idas e vindas. Em um momento, estamos mais próximos da perda e da dor, e absolutamente tudo nos faz lembrar aquilo que foi perdido. Em outro, nos afastamos um pouco para descansar e recuperar as energias.

Por isso, não estranhe se você rir em um dia e chorar no outro. Não se culpe por sentir alívio em alguns momentos ou por experimentar culpa ao perceber que conseguiu passar algumas horas sem pensar na perda. Isso não significa falta de amor nem esquecimento.

A psicoterapia pode te ajudar

O luto é difícil porque você está realizando uma das tarefas mais difíceis da vida: aprender a viver novamente. A psicoterapia pode auxiliar você nesse momento extremamente difícil, por meio de encontros com um profissional que ajudará a compreender suas oscilações emocionais sem julgamentos e a construir recursos para lidar com elas de forma mais consciente.

O objetivo não é fazer com que o luto termine mais rápido ou eliminar a dor, mas oferecer um espaço seguro para que ela possa ser vivida, elaborada e, no seu próprio tempo, integrada à sua existência, favorecendo a construção de novos caminhos para seguir vivendo.

Escrito por

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Marcos Nascimento

Psicólogo clínico, formado pela Universidade Federal de Pernambuco, especialista em Psicologia Clínica com pós-graduação em Psicologia Fenomenológica e Hermenêutica pelo Instituto Dasein, além de ser membro do American Daseinsanalytic Institute.

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